quinta-feira, janeiro 04, 2007

Sem penas


acrílico s/tela, 70x30cm

Como já vi pintarem por cima de trabalhos vossos e me fez alguma pena, trago essa discussão para a mesa. Todos nós já sentimos esse impulso, quando as coisas não correm a contento e temos até alguma urgência em esconder o que consideramos um erro, uma inépcia. No Ar.co ensinaram-me que nunca se faz isso, não só porque é fundamental mantermos um registo da nossa evolução, como se aprende muito com a análise posterior dos trabalhos que nos incomodaram, à luz duma maior experiência.
A ARTnews de Novembro dedica um artigo a este assunto e entrevista diversos artistas no sentido de apurar o que fazem com os trambolhos que produzem. O consenso geral é que, sempre que se desfizeram deles, se arrependeram mais tarde. Pelo meio ficamos a saber de histórias várias, muito interessantes da reconversão dessas obras, de paixões tardias, de interesse póstumo de curadores (póstumo em relação à tela que já havia sido destruída).
Na introdução do artigo é citado Renoir que, alegadamente, terá dito ao seu marchand Paul-Durand-Ruel que, se só vendesse as suas obras boas, teria morrido de fome há muito tempo atrás.

14 comentários:

dismore disse...

É uma boa questão. E lerei com todo o interesse o artigo da ArtNews sugerido. No entanto, eu continuo por vezes a reutilizar algumas das minhas telas antigas, por um lado porque tenho a certeza quase absoluta de que não sentirei a falta das que escolho para tal, também por uma questão económica e por último, mas não menos importante por falta de espaço.

Luísa R. disse...

Concordo com a Dismore.

Também já reutilizei algumas telas
e não me arrependo.
Mas nunca aconteceu como um impulso...
Foi uma decisão pensada.

Quanto ao facto de guardarmos os trabalhos ao longo do tempo, também aprendi isso no Ar.Co.
É bom mantermos um registo da evolução.
O que não quer dizer que guarde tudo.

Scanariza o artigo da ARTnews e manda-nos, se puderes.
Tenho Artforum para a troca.

dismore disse...

Ah, é verdade! Hoje em dia temos sempre a possibiliade de guadar esses trabalhos em fotografia. Não é a mesma coisa, mas é melhor que nada. E yessss please ao scan do artigo se possível. Só agora percebi que não dá para ver online.

Cristina E. Leal disse...

Relativamente a guardar as fotografias, um dos testemunhos é precisamente nesse sentido: a organizar uma exposição retrospectiva da Elizabeth Murray, um curador do Museum of Modern Art perguntou-lhe onde podia ver ao vivo uma tela que ela tinha destruído porque odiava.
Luísa, o ano passado tu pintaste por cima uma tela em que estavas a trabalhar na altura, sobre a qual só tiveste opiniões favoráveis. Foi claramente uma decisão impulsiva: num dia estavas a pintá-la e no dia seguinte cobriste-a e começaste outra coisa completamente diferente. Independentemente do resultado da 2ª versão, destruíste um projecto válido.
A Pat Steir tinha uma tela que odiava, e que não pintou por cima porque toda a gente lhe dizia para não o fazer; hoje em dia é uma das sua telas favoritas. Outros exemplos são no sentido de redescobertas: pegas numa tela que estava de costas há anos e consegues vê-la com um olhar completamente novo, sabendo de imediato como fazê-la evoluir.
Todos conseguimos arranjar espaço para guardar umas telas - numa arrecadação (se não for nossa, dos pais, por exemplo), atrás dum armário, é só pôr a imaginação a trabalhar. Vou tentar scanarizar o artigo e enviá-lo.

Luísa R. disse...

Na verdade, numa tela que se visse e fazendo parte de um projecto, só aconteceu uma vez. Essa vez.
E foi uma decisão muito pensada. Pensada durante todo o período das férias da Páscoa.
Ainda antes das férias, tinha falado com o professor sobre a hipótese de mudar de projecto. Porque, além da tela, era o projecto que estava em causa.
(e agora, pensando também... não estavas na nossa sala... de onde é que saíu a ideia peregrina que a decisão tinha sido tomada de um dia para o outro?...)
Quanto ao facto de ter recebido bastantes elogios sobre o antigo trabalho, agradeço-os.
Uma coisa é certa: não me arrependo.
Não me sinto muito à vontade para falar de situações pessoais aqui na net.
Mas agradeço o facto de teres gostado do trabalho.

pedro disse...

Aconteceu-me uma vez ter pintado uma tela por cima (facto que aliás refiro no meu blog). Acho que, desde que o autor ache o trabalho globalmente mau, pode entrar pela anulação visual. Digo anulação visual e não destruição, porque a ideia fica na cabeça. Há trabalhos absolutamente irrelevantes durante o nosso percurso, e o que possamos ter aprendido nalgum que destruimos, entra sempre muita informação para o futuro. Lembro-me de o Resende referir que qdo alguém lhe dizia que tinha uma tela dele mto antiga, ele corria a vê-la, numa atitute que atribuo mais a uma espécie de auto-vouyerismo (quem resiste a ver-se num filme de infância?). Mas uma coisa é o Resende e outros conceituados, outra coisa sou eu que ainda vou nos primórdios e sei concretamente que não anulei nada de jeito! Já no caso da luisa ... mas mesmo que ela tenha anulado aquele quadro, isso faz parte do percurso dela, anulou uma ideia. Mas essa ideia não a anulou a ela e ficou-lhe a maturar na cabeça, para mais tarde dar uma pequena contribuição num futuro trabalho ... mas tb concordo com a cristina: se tivermos espaço é melhor ir guardando, pk não?

PS: experiencias de revitalização de coisas fracas, teem(-me) resultado em geral em fracassos ...

Joana E Leal disse...

É uma questão mais complicada do que parece.
Quando se fala de arrependimento, acho que é a longo prazo - é pouco provável que alguém se arrependa 3 ou 4 anos depois de destruir/anular um trabalho... Com isto quero dizer que, na minha opinião, os casos pessoais que aqui se falaram (dismore, luísa e pedro) não são exemplificativos do que se está a discutir, porque ainda não houve tempo para reflectir; não houve arrependimento porque também ainda não houve tempo para isso. Claro que pode nunca vir a haver - embora eu ache que isso acontece por nunca mais sermos confrontados com o que fizemos (nunca mais se olha para uma trabalho que já não existe, apenas se pensa no que veio a seguir).
Além disso, acho difícil esperarmos que um trabalho que não gostamos nos caia no goto ao fim de uns mesitos... O que nos faz não gostar é a nossa situação presente: as condições da nossa vida na altura, a fase de evolução da nossa "carreira" artística,... Nada disso é imutável, pelo contrário; é inegável que o nosso gosto e a nossa capacidade de apreciação e sentido crítico progridem a par da nossa própria evolução. No ano passado fiz um trabalho que não gostei. Não estou à espera de vir a gostar dele para o ano, ou mesmo no outro a seguir. E é por isso mesmo, por ainda não ser possível tomar essa decisão ponderadamente, que não me passa pela cabeça pintar qualquer coisa por cima. Espero daqui a uns anos olhar para aquele trabalho com outros olhos - e pode mesmo ser que sejam uns olhos que me façam pegar numa trincha e tapar aquilo... mas pode ser que não. E estou mais inclinada para esta última.

Curiosamente, este tema surgiu em conversa numa aula de literatura portuguesa (aplicado à literatura...). Bem sei que se pode dizer que são domínios diferentes, que os livros são feitos em série, que cada pintura é única, etc. Mas ambos são arte. São vários os escritores que se arrependem de coisas que escreveram e publicaram. Há inclusivamente aqueles que vão a todas as livrarias recolher todos os exemplares que encontram, porque a editora não os tira de circulação. Felizmente existe uma coisa chamada depósito legal, que obriga a que x exemplares vão para a biblioteca nacional. E daí não saem... Um exemplo específico é Eugénio de Andrade, que começou a publicar em 1948. Mas antes disso tinha publicado 3 livros de poesia, com o seu nome verdadeiro, José Fontinhas (de facto, o pseudónimo é muito mais poético...). E.A, que sempre foi muito rigoroso e exigente com as listas da sua bibliografia (deviam ser completas e aparecer em TODOS os livros que publicava), recusava a existência destes 3 primeiros livros. Até 1977, quando publicou um livro chamado Primeiros Poemas onde recolhia aqueles que publicou como José Fontinhas.
Independentemente de E.A ter aceite aqueles poemas não sei qnts anos depois, a verdade é que eles têm valor artístico e são um contributo importante para a literatura portuguesa e para a compreensão da obra do poeta.

Não há uma "biblioteca nacional" para a pintura, e é por isso que eu acho que devemos fazer um esforço para preservar tudo no sentido de garantirmos uma leitura de percurso ou, pelo menos, para evitar arrependimentos.

dismore disse...

Continua interessante a discussão: as fotos que tiro dos trabalhos eventualmente destruidos não mostro ,óbviamente, no meu portfolio para não me arriscar a situações complicadas...
E além disso, pelo menos no meu caso, há coisas verdadeiramente más que até eu, que ainda me considero aprendiz, sei que não têm qualquer hipótese. Pelo menos isso eu já aprendi. E sim, é claro, que às vezes não são totalmente destruidas mas sim continuadas de uma forma completamente diferente. Alguns dos trabalhos de que mais gosto foram precisamente feitos em cima de telas reutilizadas o que lhes dá uma textura e aparencia bem mais interessantes.
Cristina, recebi o mail com o artigo mas infelizmente não consigo lê-lo. Não sei se aconteceu com os outros.

heitor disse...

Permitem que um ignorante se introduza na conversa? A pintura é uma expresão artística, mas é sobretudo, pelo menos para mim, uma manifestação de vida, e se calhar, para muitos de vocês, um impulso vital. A vida é errática por natureza, não se concilia com prisões, com esquemas. É evidente que há um projecto, mas ele incorpora e manifesta aquilo que somos em cada momento, a realidade problemática de cada um, é uma "unended quest", um "work in progress": tropeçar, cair, levantar, sentir-se iluminado ou totalmente às escuras, brigar, acolher, repudiar, exaltar. E nisto tudo o importante é a inscrição desta deriva dentro de nós, essa sim valiosa e inapagável, e que nos transforma. Se não nos transforma, não valeu a pena. E esta inscrição tanto se manifesta pintando por cima como deixando os "trambolhos" arrumados num canto da arrecadação à espera de outro olhar. Se eu pinto por cima, é porque falta alguma coisa. Se deixo na arrecadação, será pela mesma razão. Mas se houve uma transformação que se realizou dentro de mim (no limite até pode ser uma evolução técnica), para que serve o "trambolho"? Para escrever a minha própria história? Que diabo, isso não é um impulso vital!

Luísa R. disse...

Em demanda...
Também penso assim, Heitor.
Bjs

Cristina E. Leal disse...

Achei que era importante alertá-los para a irreversibilidade de alguns impulsos que todos sentimos. Mas cumprida esta obrigação, para ser sincera, é-me indiferente o que cada um faz com os seus trabalhos...:)
E acho que o post da Joana é muito lúcido, subscrevo-o inteiramente.
O histórico é um auxiliar da demanda porque é apoiando-nos no passado que construímos o futuro; se o apagarmos, corremos o risco de lhe perder a leitura e os ensinamentos.Não era no sentido narcísico de refocilar no espólio.
Quando a técnica se apura, conseguimos um olhar mais lúcido sobre as obras antigas, perceber porque é que não funcionaram e, muitas vezes, reciclar as ideias subjacentes.
Os estudos prévios servem para se aferir a viabilidade dos projectos - em termos de composição, espaço, cor, tema, etc - antes de partirmos para a tela, o que faz com que as telas que não funcionam não sejam assim tantas que nos entupam o espaço e a vida, mas, de facto, não é o meu objectivo conseguir convencê-los a fazer aquilo que não querem.

pedro disse...

Finalmente li o artigo. Há uma confusão. Cristina, o que me tem fascinado nesta troca de ideias é que nunca mais somos os mesmos. E com o teu post, de certeza que qq um de nós vai pensar muito mais antes de pintar por cima. Eu por mim vou passar a guardar, alertado por ti. Não sei porque dizes "a fazer aquilo que não querem", se pelo menos a mim já influenciaste. Mas há aqui 2 diferenças fundamentais. Exemplos: 1) pintar uma paisagem de boliqueime numa tela onde antes estava uma jarra de cavacos; 2) pegar numa tela com a cara do silva, que fica sempre mal, e aproveitando a base da cara, progredir para uma cara imaginária, com outra expressão, com outro estudo de luz, etc. Eu tenho feito muito o 2º exemplo e não considero que isso seja "pintar por cima". É o que faço também em desenho. No desenho sou mais "radical" e, quase diariamente, desenho por cima para tapar horrores gráficos (leia-se lixo). De qualquer forma, em jeito de desabafo ainda ontem estive a olhar para umas telas e ... são mesmo más, caramba!!! ;o).
heitor: o guardar tudo tb pode ser, para alguns, um impulso vital ... um impulso (vital ou não) é temporalmente mensurável e cada um tem a sua base de tempo. Guardar uma tela mal resolvida atrás de um movel pode ser um acto impulsivo vital. Ir lá buscá-la mais tarde para melhorar pode ser tão vital como rasgá-la com um cutelo. Gostei do comment todo mas não entendi a frase final. podes explicar melhor?

Luísa R. disse...

Heitor,
Só agora vi... "Ignorante"?! :o)


Pedro,
«Guardar uma tela mal resolvida atrás de um movel pode ser um acto impulsivo vital»...
(não sei que te diga...)
e «Ir lá buscá-la mais tarde para melhorar pode ser tão vital como rasgá-la com um cutelo.»
Isso é que são impulsos, amigo Pedro «Lucio Fontana»! :O)

Cristina,
Gostei muito dos artigos, obrigada.

O facto de não guardarmos um ou outro trabalho...não é por aí que a história se apagará.
E de qualquer forma, uma coisa somos nós. Outra será um Picasso.
Quanto aos estudos prévios, concordo, claro. Mas o processo não se esgota aí.

Em resumo, continuo a pensar que faz todo o sentido guardar muita coisa. Mas não tudo.

heitor disse...

São claras e compreendo as razões e a argumentação apresentada pelos diversos intervenientes, que encontram acolhimento no próprio campo em que a discussão é suscitada: a actividade de pintar como compulsão e projecto de vida. Pelo menos assim o entendi.
No entanto, quis introduzir uma perspectiva adicional e para completar o meu ponto de vista, permitam que recorra a duas citações:
- de um poema de Shakespeare, «Let thy blood be thy direction until thy death»;
- de uma canção de Leonard Cohen, «I came so far for beauty / I've left so much behind»

That's all, folks