quinta-feira, novembro 30, 2006

Do inefável

No sentido mais restrito, todos os conteúdos da consciência são inefáveis. Mesmo a mais simples das sensações é, na sua totalidade, indescritível. Toda a obra de arte precisa, portanto, de ser compreendida não só como uma coisa que é expressa, mas também como um certo tratamento do inefável. Na arte maior, temos sempre consciência de coisas que não podem ser ditas (regras de «decoro»), de contradições entre a expressão e a presença do inexprimível. Os mecanismos estilísticos são igualmente técnicas de fuga. Os mais poderosos elementos numa obra de arte são, muitas vezes, os seus silêncios.

Susan Sontag in Contra a Interpretação e outros ensaios, Lisboa, Gótica, 2004

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Querem comentar?

13 comentários:

Luísa R. disse...

Cristina,
Em resposta ao teu novo post, a minha intenção é ser uma nova discussão.
Novo post, nova discussão.
Bjs

Luísa R. disse...

Quanto ao Vuilard, a questão segue no mesmo post. Já está lá outro comentário. Vou tentar, mais tarde, contribuir mais um bocadinho.

Cristina E. Leal disse...

Pois não tenho muito para dizer acerca disto. É tudo verdade, claro, não só para a arte como para tudo na vida. Não queres adiantar mais qualquer coisa, alguma associação a uma coisa concreta, por exemplo, para saber o que vai no teu pensamento?

Cristina E. Leal disse...

Já agora, só duas questões:

1ª o que é "arte maior"?

2ª tu que leste o ensaio completo diz-me se ela faz parte da facção que defende que a fruição estética deve ser emocional contra os que acham que ela deve ser cognitiva ou se isto vem no seguimento de qualquer outra coisa.

Luísa R. disse...

Fundamentalmente, a Susan Sontag era contra a interpretação da obra de arte (seja ela psicanalítica ou outra).

Responder às tuas 2 questões, seria ler-te o livro todo :)
Dá uma vista de olhos pelo livro. Acho que vais gostar.

E situa o ensaio em 1966.

Luísa R. disse...

Acerca da escolha do excerto do livro que escolhi para este post:

Quando gosto muito de uma obra de arte, posso conseguir explicar um pouco das razões desse gostar, dessa apreciação.
Mas existe algo que não consigo explicar pela razão.
Algo que não saberei explicar e que é intraduzível pela palavra.

Seja na arte, seja na vida.
Mas não está tudo ligado?

No «Alexis» da Marguerite Yourcenar:
«Tenho lido vezes sem conta que as palavras atraiçoam o pensamento, mas parece-me que as palavras escritas atraiçoam-no ainda mais.»

Sejam escritas ou faladas, quase sempre as palavras não conseguem traduzir o pensamento.
Pelo menos, o meu :O)

pedro disse...

Sobre a interpretação ou não das obras, e do meu ponto de vista pessoal:
1) qq obra é passível de interpretação; essa interpretação pode ser pessoal, convergente com o autor, ou estar a milhas do que o autor pretendeu (aqui entram os aspectos subjectivos, já debatidos quando falámos do foucault e do vuillard). Há no meu blog um exemplo com o título do post onix e electra que penso já contei e é um bom exemplo das análises demasiado rebuscadas que se fazem a determinadas obras ...
2) a luisa deixou claro que são as palavras dela que são "curtas" para expressar pela razão o que se gosta numa obra. Penso que não fica a ideia de que há algo de transcendente na arte ... eu diria que nós não temos palavras por limitações de várias ordens, mas a arte consegue explicar-se pela "razão" ... no sentido epistemológico de "razão"
3) a arte pela arte ou a arte como função social, é um tema ainda não debatido aqui entre nós, mas que já é tema desde a segunda metade do séc XIX (impressionismo/primeiro realismo de courbet, mais tarde neo-realismo/surrealismo), e que tem semelhanças com o debate interpretação/não interpretação ...
bjs
Pedro

Cristina E. Leal disse...

Pois, Luizinha, lamento, mas acho que não iria gostar do ensaio porque discordo com essa história de "ser contra a interpretação de obras de arte". Concordo inteiramente com os pontos 1 e 2 do post do Pedro. De facto, se estamos perante um exercício de cor, por exemplo, é absurdo tentar arranjar interpretações transcendentes, mas há muitas obras que saem extremamente valorizadas após uma análise mais atenta.

Não dá para explicar o que ela quer dizer com "arte maior"?

Quanto ao ponto 3, eu continuo a achar que todas as tentativas de dicotomizar (isto existe ou é um vergonhoso pontapé na gramática?!) este tipo de questões estão votadas ao fracasso. Há coisas que valem pelas sua qualidades estéticas, outras pela sua intervenção na história, enfim, pode haver mil razões para validar a existência duma obra.

Uma das coisas que me irrita (e volta não volta, dou por mim a fazer isso, o que me irrita ainda mais) é o que parece ser um tique social que consiste na necessidade de separar os artistas pelo nível de aproximação ao real. Quantas vezes já vocês ouviram (sobre o vosso trabalho ou de outros) "pinta figurativo ou abstracto?" como se uma coisa anulasse a outra.

Este semestre, na snba, vou tentar usar as 2 linguagens na mesma tela de forma a conseguir uma leitura perceptível, consistente e lógica. Se calhar vou-me espalhar, mas depois conto com vocês para me ajudarem a levantar e a apanhar os fragmentos de ego do chão para depois eu colar em casa, ao serão, sem testemunhas.

Luísa R. disse...

Quanto ao ensaio da Susan Sontag, como já tinha dito, devemos situá-lo em 1966.

(Cristina, quanto à «arte maior», vai-se a ver e a Susaninha era uma snob...)

Quanto à interpretação das obras de arte, já comentei no post "Moda ou Mudança de Mentalidade?" quando referi os exemplos da Guernica e da Mona Lisa.
Posso acrescentar que, normalmente, tento situar tudo em contexto, na sua época.
Do que muitas vezes duvido é das interpretações psicanalíticas, por exemplo.
Mas também devemos contextualizar as interpretações. Em que época foram feitas, por quem, etc.
Como no prefácio do "Retrato de Dorian Gray":
«it is the spectator, and not life, that art really mirrors»
(e esta frase dava um novo post, mas como mais uma vez não a subscrevo na sua totalidade, uso-a já aqui)


Quanto às dicotomias...
Concordo o mais possível com a Cristina.
Também preciso ligar várias linguagens.
E às vezes separo-as em exercícios concretos.
Estou à procura. E assim andarei, espero. Como, aliás, todos nós :)
E, Cristina, claro que os teus trabalhos ficarão muito bons. Força, estamos contigo :)

pedro disse...

começam a desenhar-se algumas das linhas do nosso futuro manifesto ;o).
Estou de acordo convosco, mesmo quanto á dicotomização (isto soa muito mal ;o).
Acho que em arte tudo é possível ainda que depois tenha de ser sujeito a apreciações estéticas. A intenção do artista e de quem vê a obra podem nem ser convergentes, isso não importa. pode haver algo inconsciente numa obra e ser consciente para quem está a vê-la. Não vou muito por rótulos e há demasiados "ismos" que me fazem lembrar a divisão das espécies e subespécies terrenas ... mas reconheço que alguns grandes grupos são importantes só para conseguirmos arrumar algumas noçoes e ideias, mas nunca a dicotomia abstrato/figurativo que é demasiado redutora, e tal como dizes, calvina (cristina+calvin), podem coexistir (lindo termo) numa tela. Estou curioso do resultado desse objectivo que acho interessantissimo e fará parte do capítulo 12 do nosso manifesto.
Ninguém comenta a perspectiva científica da arte? É um assunto muito polémico ...

Cristina E. Leal disse...

Para poder comentar era preciso eu saber o que é isso da perspectiva científica da arte e estou em branco. Se isto fosse um teste, já tinha ardido... dê lá uma ajuda, stôr, vá lá!

pedro disse...

eu próprio ando à toa calvin ... já li umas coisinhas, mas está tudo colado com fita-cola. estava a ver se vos picava para aprender alguma coisa ... estava armado em calvin, mas com pele de hobbes, daí que não pegou ... bjs

Cristina E. Leal disse...

Malandro. Já vi que é preciso ter muito cuidado contigo. Como castigo, agora vais estudar e depois voltas aqui com o TpC feito...