quarta-feira, novembro 08, 2006

Isto tem andado muito morto...


acrílico s/tela, 60x80cm

Michel Foucault, no seu livro "O que é um autor?" levanta algumas questões muito interessantes.
"Como é que o autor se individualizou numa cultura como a nossa, que estatuto lhe foi atribuído, a partir de que momento, por exemplo, se iniciaram as pesquisas sobre a autenticidade e a atribuição, em que sistema de valorização foi o autor julgado, em que momento se começou a contar a vida dos autores de preferência à dos heróis, como é que se instaurou essa categoria fundamental da crítica que é "o-homem-e-a-obra" - tudo isto mereceria seguramente ser analisado."
"Na nossa cultura (e, sem dúvida, em muitas outras), o discurso não era, na sua origem, um produto, uma coisa, um bem; era essencialmente um acto - um acto colocado no campo bipolar do sagrado e do profano, do lícito e do ilícito, do religioso e do blasfemo".
"... de onde é que veio, quem o escreveu, em que data, em que circunstâncias ou a partir de que projecto. O sentido que lhe conferimos, o estatuto ou o valor que lhe reconhecermos dependem da forma como respondermos a estas questões. (...) O anonimato literário não nos é suportável; apenas o aceitamos a título de enigma. A função autor desempenha hoje um papel preponderante nas obras literárias."
Pois eu diria que não é só nas obras literárias. Isto parece-me uma questão transversal a todas as artes. Any comments?

12 comentários:

elsa m. disse...

Lembrei-me logo das mulheres aborígenes mencionadas por Germaine Greer no "of beauty and consolation", para quem pintar é apenas o acto do momento, sem autoria individual, ou outras implicações. Interessante.

pedro disse...

este é, para mim, o teu melhor trabalho dos que conheço!
quanto ao foucault: nos limites, a obra anónima de um lado, e a anulação da obra no outro extremo.
o abel salazar propunha um problema parecido: a obra é individual OU colectiva ou individual E colectiva? seria o foucault um neo-liberal da literatura? ;o) seja como for o pós-modernismo que lhe atribui a wikipedia, acenta-lhe como uma luva. está lançado o debate ...

Cristina E. Leal disse...

Em que contexto é que a questão da obra ser individual e/ou colectiva se põe? É o mesmo que defender uma obra isoladamente vs como objecto de fruição, i.e., achar que, mais importante que a avaliação qualitativa duma obra em termos absolutos é a riqueza da interacção que ela suscita com os espectadores? Não estou a armar-me em parva, não percebi mesmo porque não conheço a obra teórica do Abel Salazar (falha imperdoável, bem sei). Seja como for, gostava de saber a vossa opinião sobre a questão da autoria, porque eu tenho dado bastantes voltas à cabeça (o espaço para as voltas também é exíguo, portanto não se preocupem) e não consigo chegar a nenhuma conclusão definitiva. Acho que talvez a primeira avaliação deva ser feita à obra em si e só depois confrontada com a nossa avaliação do autor para um outro nível de apreciação ou até confrontação com as impressões iniciais. Mas depois levantam-se outras problemáticas...

pedro disse...

o abel salazar só pode ser encarado historicamente, porque está inserido, salvo erro, no movimento neo-realista que tem a sua carga ideológica, como sabes. Só dei o exemplo porque o facto de se assumir que uma obra é individual E colectiva remete para as influências do exterior (sociedade) no individuo (autor), ou seja, o autor nunca é "dono" da obra ... isso, para mim, tem alguns paralelismos com o que escreveu o foucault. Mas na minha modesta opinião, vou mais longe do que tu foste: a única avaliação que deve ser feita é à obra em si! Se é uma obra "honesta", revelará algo sobre o autor ... um exemplo, a vida absolutamente trivial do hopper e a inquietação (quase) psicótica do bacon são bem visíveis nos seus trabalhos. Mas concordo que estes são exemplos fáceis. O problema, cristina, é que eu detestaria saber que o morandi snifava coca ... isso seria paradoxal. Para mim, o binómio autor-obra, não me diz nada ... por enquanto ... quais são as outras problemáticas?

Cristina E. Leal disse...

As problemáticas de que falo são da ordem da contaminação provocada pelo cruzamento das informações sobre a obra e o autor. Mas, por outro lado, não acho que seja possível dissociar as duas coisas. Vamos por partes: vês um quadro que te agrada em termos plásticos; esse quadro não pode ser visto como uma obra isolada, ele faz parte duma obra mais vasta e o seu significado é mais profundamente percebido quanto maior for o estudo da sua relação com a obra num sentido amplo; agora isto também se aplica ao autor porque também não consegues dissociar a obra do seu autor. Quanto mais souberes sobre os seus pensamentos, o seu percurso, as suas angústias, maior será também a tua compreensão do seu trabalho. Provavelmente se a Peggy Gugenheim não desse festas fabulosas e se o Pollock não afocinhasse no chão repetidas vezes por causa das bebedeiras monumentais, a geometria fractal não seria conhecida. (Estou a brincar com situações limite, claro, mas é muito difícil estabelecer as fronteiras da pesquisa). Já dizia o Eça que o impulso que nos leva a espreitar pelo buraco da fechadura é o mesmo que nos leva a descobertas científicas.

Luísa R. disse...

robôs pintores do Leonel Moura

pedro disse...

sim, quanto mais sei de um pintor maior poderá ser a compreensão e fruição da sua obra, mesmo com contaminação ... de qualquer forma isso não é fundamental na minha perspectiva de arte, ao contrário do que parece fazer crer foucault. Ainda hoje na arte lisboa, sempre que via um trabalho que gostava, espreitava pelo buraco da fechadura do nome do autor, apenas ... é que a contaminação do autor na obra pode ter um efeito perverso. p. ex., será que a nossa opinião sobre a obra de um autor muda se soubermos que ele é pedófilo?

Cristina E. Leal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristina E. Leal disse...

Não, eu acho que as escolhas pessoais dum autor não devem ter a ver com a avaliação da obra. Senão, estávamos bem tramados: a maioria dos grandes génios eram uns estupores. Eu receio a contaminação mais no sentido de - nesse processo que dizes de deitarmos um olhinho ao nome do autor - requalificarmos a referida peça em função disso. Será que somos mais benevolentes com a apreciação de trabalhos de autores consagrados? A necessidade de incluir em todo o lado a informação relativa ao percurso académico/artístico não estará relacionada com a pré-validação dos seus trabalhos?
PS - o Foucault não afirma nada, analisa historicamente a questão da autoria e lança perguntas bastante pertinentes, quanto a mim. Um dos paralelos que estabelece, por exemplo, tem a ver com a evolução do problema da autoria de textos literários vs textos científicos: "Houve um tempo em textos que hoje chamaríamos literários (narrativas, contos epopeias, tragédias, comédias) eram recebidos, postos em circulação e valorizados sem que se pusesse a questão da autoria; o seu anonimato não levantava dificuldades, a sua antiguidade, verdadeira ou suposta, era uma garantia suficiente. Pelo contrário, os textos que hoje chamaríamos científicos, versando a cosmologia e o céu, a medicina e as doenças, as ciências naturais ou a geografia, eram recebidos na Idade Média como portadores do valor de verdade apenas na condição de serem assinalados com o nome do autor. "Hipócrates disse", "Plínio conta" não eram, em rigor, fórmulas de um argumento de autoridade; eram indícios que assinalavam os discursos destinados a ser recebidos como provados. No séc.XVII ou no XVIII produziu-se um quiasma; começou-se a receber os discursos científicos por si mesmos, no anonimato de uma verdade estabelecida ou constantemente demonstrável; é a sua pertença a um conjunto sistemático que lhes confere garantias e não a referência ao indivíduo que os produziu. Apaga-se a função autor, o nome do inventor serve para pouco mais do que para baptizar um teorema, uma proposição, um efeito notável, uma propriedade, um corpo, um conjunto de elementos, um síndroma patológico. Mas os discursos literários já não podem ser recebidos se não forem dotados da função autor: perguntar-se-á a qualquer texto de poesia ou de ficção de onde é que veio, quem o escreveu, em que data, em que circunstâncias ou a partir de que projecto. O sentido que lhe conferimos, o estatuto ou valor que lhe reconhecermos dependem da forma como respondermos a estas questões."

pedro disse...

acho que somos mais benevolentes com os consagrados, talvez por insegurança (e por enquanto) ... tb concordo contigo qdo dizes que há uma tentativa de pré-validação qdo é mostrado curriculum. Ficamos condicionados.
Qto ao foucault, não consigo dar opinião sem ler o livro. Mas uma coisa chamou-me a atenção no que escreveste: os trabalhos científicos têm uma validação baseada numa avaliação pelos pares (peer review), coisa que é impensável em literatura e muito menos em arte (há o divertido ensaio de correcção do van gogh pelo nadir afonso, mas não conheço mais nada do género)... será por falta desta critica dos pares que se recorre à pré-validação?

Cristina E. Leal disse...

Tens toda a razão, existe um grande pudor em criticar publicamente os pares.
Quanto à introdução do Leonel Moura nesta discussão, fico sem saber muito bem por onde pegar. Por um lado acho que um artista que deixou de correr riscos, que deixou de experimentar, perde um pouco a sua razão de existir (a partir de certa altura da sua vida, o Piet Mondrian pintou sempre o mesmo quadro, por exemplo, enquanto o Picasso arriscou até ao fim). Mas aquele que vive para a originalidade e a inovação a todo o custo também me parece muito limitado. Ou seja, a riqueza da arte é poder ser tudo, é abrir portas aos sonhos de uma forma muito democrática, muito transversal (e não só dum restrito grupo capaz de intelectualizar a arte). Mais do que a inspiração do artista, eu valorizo a sua capacidade de inspirar os outros. Desconfio sempre daqueles que alegam ser os estandartes da nova expressão artística. A história tem provado que acabam como todas as correntes, destronados por qualquer outra nova linguagem, mais moderna. É que eu encaro a arte como um organismo vivo, que escapa a todas as tentativas de classificação, de orientação, de obrigatoriedade. E, sobretudo, sempre articulada com o seu passado, não o renegando.
Não é preciso estarmos sempre a inventar a roda para nos mantermos na crista da onda. O Gerhard Richter disse uma coisa muito engraçada, numa entrevista em que, insinuando que o conceito de pintor estava compleamente obsoleto, o entrevistador o empurrava para fora desse estatuto (por achar limitado e não apropriado para um artista consagrado actual); dizia então eu que o GR respondeu, já um pouco agastado, "Parece-me que é como alguém dizer que já não se pode usar mais a linguagem porque é uma herança burguesa, ou que já não temos de imprimir textos em livros, mas em taças ou pernas de cadeira. Sou suficientemente burguês para continuar a comer com faca e garfo, do mesmo modo que pinto a óleo em telas."
Só mais uma coisa: aqui há meia dúzia de anos também houve um movimento que punha gatos a pintar e alguns quadros atingiram preços bastante elevados no mercado; mas depois penso que os gatos se terão aburguesado, porque não ouvi mais nada deles...(já os meus gatos são absolutos inúteis, incapazes de contribuir para o seu sustento).

pedro disse...

Subscrevo. Gosto especialmente desta parte "Ou seja, a riqueza da arte é poder ser tudo, é abrir portas aos sonhos de uma forma muito democrática, muito transversal (e não só dum restrito grupo capaz de intelectualizar a arte)". Só acrescento que todas as manifestações artísticas têm algumas condicionantes. a pintura está condicionada à superfície, p. ex.
O leonel moura ... gostava de perceber melhor. Há 2 (3?) anos, qdo conheci os robos na feira, entendi os trabalhos como uma experiência, uma pesquisa, ou até uma provocação: "pode pintar-se através de um algoritmo, de uma receita". Por outro lado, pelo que vi no site e li no ensaio, parece-me que ele tem interesse em provar que a aleatoriedade pode produzir arte, que a ciencia e a tecnologia são incontornáveis e que vão mudar a arte (?). tudo é legítimo. eu penso que a luisa quiz dizer-nos que, no futuro, o autor tb pode ser um robot, anónimo e igual aos outros, sem curriculum. Nesse contexto, o autor tb pode ser o programador do algoritmo, mas se o algoritmo for genético ou neuronal, p. ex., o autor é a natureza ... mais perguntas sem resposta.
Não sei qual é o percurso do leonel moura, mas algumas das coisa que ele diz nesse ensaio revelam um puro desconhecimento das limitações do homem e um romantismo tecnológico típico dos anos 70. A inteligência artificial apareceu fulgurante nessa época e passados mais de 30 anos a cibernética não passou de uma grande desilusão. onde é que está o robot dona de casa? O que o leonel moura não quer acreditar é que daqui a 100 anos ainda se acendem luzes em interruptores e, provavelmente, ainda se pintarão quadros a pincel muito apreciados ;o)