sexta-feira, janeiro 12, 2007

Vamos falar de cor?


"Sais", acrílico s/tela, 50x50cm

Depois duma conversa com a Luísa sobre a atracção/repulsa que sentimos pelas diferentes cores e como é tão variável de pessoa para pessoa, achei que era interessante saber o que cada um de vocês pensa acerca disso.
Relendo o Dicionário das Cores do Nosso Tempo, de Michel Pastoureau, deparei-me logo com 2 frases que podem servir de pedra de toque:
"Sob a forma de quadro, acrescentei ainda, para as 6 cores de base da cultura europeia - branco, preto, vermelho, azul, verde, amarelo -, um balanço das suas funções e significados na sociedade hodierna (aqui, convém esquecer tudo aquilo que aprendemos sobre a distinção entre cores primárias e complementares: essa distinção não tem qualquer realidade social ou cultural)."
"Eu sou daqueles que julga que a cor é um fenómeno cultural, estritamente cultural, que se vive e define diferentemente segundo as épocas, as sociedades, as civilizações. Não há nada de universal na cor, nem na sua natureza nem na sua percepção."

5 comentários:

pedro disse...

Pegando na última frase "Não há nada de universal na cor, nem na sua natureza nem na sua percepção.", que subscrevo todinha, curiosamente é paradoxal com a ideia que fiquei do livro. Li-o há uns bons 3/4 anos e a ideia com que fiquei foi a de ser pouco adequado a quem pretende saber mais sobre cor na pintura. Achei-o mais talhado, p ex, para um publicitário ou um designer de marcas. Mas este assunto é muito importante e vou colocar aqui mais logo algumas "noções" polémicas sobre cor que fui lendo por aí. Algumas do arnheim, o tal que já foi objecto de polémica em troca de mails nossos. De qq forma, em resposta à pergunta inicial: em primeira mão, há uma influência clara do ambiente em que vivemos nas cores que usamos (mais uma vez a entrevista do resende, ele fala disto); outro exemplo disto são os consagrados espanhóis e as cores que usam em contraste com outras escolas (qq livro sobre o el greco fala da transformação na cor qdo passou a viver em toledo).
Este teu quadro que tive o privilegio de ver crescer pode ser o case-study, se não te importares; se te importares podemos partir da discussão da opção de cores de uma qq coisa minha; senão vejamos: a tua opção do vermelho nos sais fora do saco é intencional, mas deixou-te pouco "espaço de manobra" com o fundo; mas há uma parte suficiente do frasco que ajuda no volume dos sais, resultando tudo numa composição muito equilibrada à la cristine. Mas teria todo o interesse de te ouvir explicar essa opção e porque não optaste por outras ... seria interessantissimo.
Mas fico-me por aqui, porque o tema é um colosso, como vcs sabem ... e eu preciso de aprender muuuuuuuito

Cristina E. Leal disse...

Não sei se estou à altura de responder a esta questão que pões - a análise dum processo criativo específico -, mas vou tentar.
Tanto quanto me lembro, o fundo foi tendo diversos tons, na busca daquilo que procurava. O problema é que eu acho que algumas escolhas são racionais, mas outras são feitas à margem da consciência, através duma espécie de pensamento visual. É muito difícil olharmos para uma coisa isoladamente, olhamos para várias em simultâneo e habituámos o olhar a avaliar a relação entre elas e nós próprios, o nosso gosto (que também não é imutável, ao longo da vida os padrões pelos quais nos regemos mudam, os estímulos a que nos expomos também interferem, como referiste relativamente ao El Greco).
Decididamente, eu optei por cores tonais e não tímbricas, numa procura de valorizar a luz, o claro-escuro, o silêncio. Quando cheguei a este resultado, parei, achei que o quadro estava terminado. Poderia ter escolhido outras cores? Acho que sim, mas talvez aí tenha tido particular importância a questão do gosto, que se manifesta a partir do momento em que compramos os pigmentos que constituem a nossa paleta (pensando nisso, não compro rosas, nem laranjas, tenho poucos verdes e o violeta é só uma bisnaga que dura há muito tempo; isto apesar de não usar cores como saem do tubo, mas a gama dos timbres que uso como paleta é relativamente estável). Será que respondi às tuas questões?

pedro disse...

Peguei naquela particularidade como podia ter pegado noutra. Respondeste perfeitamente ao desafio e o mais engraçado é que encontro alguns comportamentos meus na tua auto-análise (tb tenho a minha antipatia de estimação pelo amarelo... e não sei explicá-la).
Fazemos muitas coisas aparentemente inconscientes na pintura, umas resultam, outras não.
Gostei dessa do "pensamento visual"! Desenvolve mais um bocadinho que nós agradecemos.

Cristina E. Leal disse...

Acho que ao longo da vida vamos organizando um pensamento visual, auditivo, táctil, etc. Isto é, vamos construindo empiricamente códigos de leitura que nos permitem uma primeira análise das coisas muito imediata.
Não precisamos de saber as regras da perspectiva para saber se uma determinada imagem está de acordo com elas ou não; da mesma forma que podemos não ter estudado música mas percebemos automaticamente se um conjunto de notas é harmónico ou dissonante; poucas serão as pessoas capazes de calcular o centro de gravidade dum corpo e, no entanto, instintivamente nos inclinamos quando "atacamos" um declive.
A propósito desta construção de vocabulários alternativos que se constroem à margem do pensamento racional, é muito interessante uma exposição que está no Arquivo Fotográfico Municipal, no andar superior. O AFM proporcionou a um grupo de cegos e amblíopes fotografarem zonas da cidade da sua eleição; a razão das escolhas, dos enquadramentos escolhidos, da aproximação ao objecto, do momento de carregar no botão, fogem completamente aos nossos cânones, mas resultam igualmente num objecto visual. Seguidamente permitem-nos também perceber outras formas de "ler" essas fotografias. É muito interessante; se passarem perto não deixem de visitar.

pedro disse...

miga L, desculpa aquilo, mas podemos almoçar na mesma, não? lol ;o)