terça-feira, fevereiro 20, 2007

Bora ser modernos?


acrílico s/tela, 130x97cm e manipulação digital

Digo-vos que têm perdido umas reflexões muito interessantes. No sábado, na Gulbenkian, na visita guiada à exposição do Cruz Filipe apareceu o autor e a conversa foi espectacular. Entre muitas outras coisas, relacionadas com os seus processos de trabalho - ele selecciona fotografias, algumas suas, outras de revistas ou jornais, delas aproveita fragmentos que monta em novas composições e intervém com acrílico de modo a ficarem com uma leitura única, fotografa, manda imprimir em tela (aquela tela lisa, quase sem trama visível) e volta a intervir com cor, às vezes duma forma quase imperceptível, a medo, outras temerariamente.
Depois de ele dizer que, no catálogo, o Jorge Molder refere a pergunta que anda a ser feita desde a invenção e, posteriormente, da banalização da fotografia, sobre a morte anunciada da pintura, reparei na transversalidade desta questão no discurso artístico actual (palestras de Delfim Sardo na Culturgest, encontros sobre os desafios da contemporaneidade com Susana Anágua no CAM, exposição do Bruno Pacheco, obra de Gerhard Richter, Luc Tuymans, Johannes Kahrs e tantos outros). Finalmente a pintura a lida assumida e descomplexadamente com a imagem fotográfica e videográfica.
O abstracto como composição desapareceu da pintura actual; retomam-se narratividades, corporalidade da imagem, requalificam-se as imagens desqualificadas de origem videográfica. Parece ser este o desafio de hoje: nesta sociedade que nos bombardeia com imagens de todo o tipo, o papel do artista é seleccioná-las (G.Richter diz que a pintura é uma ética da escolha; e os seus atlas são prova disso: ele vê 100.000 paisagens, fotografa ou recolhe 100 e pinta 1) e requalificá-las. Ou como diz Delfim Sardo, "qualquer imagem é uma pintura possível".

6 comentários:

Luísa R. disse...

Bem dito!

:O)

(Identifico-me bastante com o que qualquer desses senhores diz.
E, como sabes, gosto muito, muito do trabalho de senhores como Gerhard Richter, Luc Tuymans, Johannes Kahrs, Eberhard Havekost, Magnus von Plessen, Wilhelm Sasnal, entre muitos outros)

P.S.- Gostei do teu trabalho. Parabéns :o)

pedro disse...

Esta tua frase intriga-me: "O abstracto como composição desapareceu da pintura actual". Compõe-se quase sempre abstractamente ... ou não?

Cristina D'Eça Leal disse...

A frase não é minha, é do palestrante. Penso que ele queria dizer que a pintura voltou a ser absolutamente figurativa, variando apenas o grau de representação, de aproximação à realidade (da realidade tal como se oferece ao pintor ou, as mais das vezes, de uma interpretação feita por outrém a que o artista tem acesso através de fotografia, cinema, etc). Em linguagem adolescente, já não é "in" nem "cool" explorar a cor, por exemplo. Quando referes que se compõe abstractamente, penso que queiras dizer que quando representamos um objecto e escolhemos um plano, um enquadramento, reduzimos esse objecto a uma mancha com a qual jogamos visualmente; é isso?

Mário disse...

Vim parar a este blog através de um link do Noturno com Gatos.
A questão da pintura e da fotografia é interessante agora que estamos numa época pós fotografia.
A partir do momento em que a técnica nos permite manipular materiais de diferentes proveniências e unificá-los numa aparência que pode não "denunciar" a sua origem, as fronteiras desaparecem um pouco e talvez deixem de ser usadas como baliza estética.

Cristina D'Eça Leal disse...

Mário, bem vindo ao nosso modesto forum. Espero que volte e que comente muito. Tem toda a razão, o desafio da arte continua a ser o questionamento dos padrões estéticos dominantes.
E tanto pior para os que preconizam - há eternidades - a morte da arte.

pedro disse...

com esta participação do mário, que é mto bem vinda, reparei que ficou uma pergunta da cristina por responder no 3º comment (desculpa, mãmã ;o)
Era mesmo isso que eu queria dizer, cristina, uma mancha ou manchas que passam a ter de agregar-se com uma linguagem diferente da inicial.
Mário, eu acho que a arte pode viver da "denuncia" explicita das técnicas usadas. luisa, estou a lembrar-me agora da exposição que vimos na gulbenkian há uns dias ...