domingo, fevereiro 04, 2007

Regresso às lides


banho, acrílico s/tela, 40x40cm

Muita coisa se passou durante este período de inacção, vamos ter que fazer um esforço para trazer para aqui tudo o que achámos importante. Pelo meu lado, queria falar-vos da conversa sobre Álvaro Lapa, das duas Fedras (a do teatro de Almada e a do Maria Matos), das palestras de Delfim Sardo na Culturgest (a não perder a próxima no dia 13 às 18h30 "A pintura como exercício antropofágico" - atenção que o bilhete é levantado 30' antes), das homenagens ao Fernando Assis Pacheco durante este mês na Casa Fernando Pessoa. Mas isso implicaria apenas a minha visão para já, e podemos adiar esses tópicos para mais tarde, se estiverem interessados.

Lembrei-me de outro assunto, bastante polémico, que é capaz de dar pontos de vista interessantes: lembram-se de, no ano passado, um artista - Pierre Pinoncelli - ter escaqueirado um dos urinóis do Duchamp exposto no centro Pompidou? Entretanto o caso está em tribunal, com recursos de vária ordem, porque o centro pede uma indemnização de 200.000€ e a defesa alega que o preço de mercado desse modelo de urinol é de 85€, além de outros argumentos de carácter artístico, como esse gesto ter sido uma homenagem a Duchamp, dentro da linha de acção de contestação do conceito e valorização de obra de arte empreendida por este autor na 1ª metade do séc.XX.

Opiniões precisam-se

12 comentários:

APIUR disse...

Comentário "light":
A paletra anterior foi muito interessante, tendo Delfim Sardo em voz pausada, abordado, (sem pausas para descanso da sua vasta sabedoria), temas que se encontram na linha de fratura que atravessa o actual estádio da Arte Contemporânea.
A não perder.
Ainda observo, na sua beleza, esta pintura. Uma imagem intimista que se revela em todo o seu minimalismo.
Saudações,
Apiur

Luísa R. disse...

Olá Rui,
Afinal sempre vieste comentar :o)
Bem vindo, então, à nossa humilde casinha.

Cristina,
Assunto polémico :O)
Tenho de pensar...

bjs

dismore disse...

Este "assunto polémico" fez-me sorrir e uma vez que são precisas opiniões aqui vai a minha mais que "light": o artista Pierre Pinoncelli parece-me um grande palerma com uma fixação por aquele urinol uma vez que pelos vistos já em tempos terá urinado para dentro do dito afirmando que assim a peça revertia ao seu estatuto de simples urinol, deixando de ser uma obra de arte. Chocar é fácil mas será arte? Existe grande polémica sobre este tipo de arte e não há dúvida que dentro do género há algumas manifestações que são pura idiotice. Ora assim, também eu, como diria o outro. Quanto à discussão do preço do urinol eu diria que até podia custar 5 Euros, a peça no meu entender passa a ser parcialmente falsa pois já não poderá ser considerada como feita pelo próprio. Dito isto, pode-se argumentar que o conceito, a ideia se mantém. Que dizer por exemplo de quadros restaurados, aí o seu valor não é posto em causa. Mas para mim o facto de saber que o urinol não é o original já mexeria comigo. O homem devia era ser posto num asilo:))

Cristina D'Eça Leal disse...

Primeiro que tudo, queria agradecer a visita e a participação do Rui (e as palavras simpáticas, claro). Também adorei a palestra, embora tudo se passe a um nível superior e eu, infelizmente, não esteja à altura de conseguir processar tudo.Mas lá me vou esforçando...
Relativamente ao Duchamp, devemos fazer um esforço sério para entender cada um dos lados.O movimento Dada marcou um ponto de viragem na história de arte porque questionou a própria arte e os conceitos existentes que a regulavam e levou a uma profunda reflexão que perdura até hoje. Uma das suas conquistas foi introduzir a efemeridade no conceito de arte. O objecto artístico, até àquela altura, tinha que ser sólido, duradouro, palpável. Os Dada conferiram valor artístico a performances, instalações, etc. O 2ª resultado foi introduzir no discurso artístico a reflexão sobre a validação da obra de arte (quem é que decide o que é e o que não é arte). O Kurt Schwitters escreveu "Everything the artist spits is art. It is not the form, the matter, the content, the category, the skill that make a product art but that the artist knows it as art." O próprio Gombrich escreve na sua história de arte "There really is no such thing as Art. There are only artists."
O movimento Dada não deu respostas; apenas levantou questões e essas questões tornaram-se tão importantes que mudaram por completo o papel do espectador. Até à data, o espectador tinha uma atitude passiva de aceitação ou rejeição da obra; agora participa na sua validação ao perguntar a si próprio se o que está a ver é, de facto, uma obra de arte e participar na grande discussão sobre quais são os pressupostos que definem o que torna um determinado objecto numa obra de arte. A proposta do Duchamp com a fonte foi que qualquer objecto da nossa vida pode ser uma obra de arte, desde que descontextualizado (o Pedro Cabrita Reis levou isso a peito na foundation).
A acção do Pinoncelli pode estar inscrita numa intenção de recontextualizar o manifesto do Duchamp: quer queiramos quer não, o urinol, ou a fonte, como quiserem, era um manifesto; agora é admirado como objecto num museu.
Não estou a defender o Pinoncelli, estou a fazer um exercício de reflexão porque acho que é possível que tenhas toda a razão e trata-se dum palerma a tentar ter os seus 15 minutos de fama.

pedro disse...

Muito longe do teu auto-intitulado jeito calviniano ;o), este teu comment deita sumo e esclarece pra caramba. Teria a mesma opinião da dismore se não o tivesse lido ... em termos artísticos o acto vale zero (não é uma performance); em termos de história de arte poderá, no limite, ficar associado como nota de rodapé curiosistica sempre que se abordar o urinol de duchamp, mas duvido; em termos psiquicos foi uma atitude produzida por um comportamento obssessivo ou mesmo psicótico; em termos civilizacionais, a humanidade perdeu mais, por exemplo, com a destruição dos budas de bamiyan; quando li o teu post lembrei-me imediatamente de uma cena em que o Mr. Bean estraga um quadro do whistler (http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/whistler/i/mother.jpg). Ao contrário do mr bean trapalhão e estupidificado pela ignorância, este homem pretendeu, segundo entendi, relembrar um manifesto de uma forma épica. Não sei se o fez recatadamente ou se o alarido nem é da sua responsabilidade.
Faço 2 perguntas: 1) seria importante nesse momento para a humanidade que fosse revitalizado o movimento dada e logo desta forma?; 2) a decisão poderá fazer juris prudencia e passar a permitir a destruição, seja por quem for, de peças assumidamente efemeras, p. ex., esquiços ou estudos de pintores (aqui volto à discussão da anulação/destruição dos nossos trabalhos)?
Tudo o que é material é efemero. O acto é irrelevante, no fundo. O conhecimento popular de arte equilibra-se quando se fala de duchamp ou de pinoncelli, com ligeiro pendor para o 1º, e isso é que é triste. Por isso o acto pode ser quase épico mas ao mesmo tempo inglório. E da mistura destas 2 palavras lê-se, inconscientemente, "idiotice" ou "palhaçada" quixotesca.
Qto aos aspectos juridicos e economicos, esse então são absolutamente miseráveis e nem merecem qq comentário.
Estou convicto que a única pessoa que pode convictamente por fim á vida de uma obra será quem a criou, mais ninguém, e o duchamp, pelo que li, já não teve "força" para isso (know what i mean?).
Destruam-se todas as obras, mas o património cultural é (quase) indestrutível e está espalhado por milhões de folhas de papel, por milhões de cérebros e agora em tera-bytes de 0s e 1s.

Cristina D'Eça Leal disse...

Tens toda a razão, Pedro. A verdadeira grande questão é que o resultado deste julgamento pode tornar mais escorregadio o campo da jurisprudência neste âmbito. Se o Pinoncelli ganhar - e não estou a dizer que não mereça ganhar - abre-se um precedente que pode mudar todas as garantias existentes de protecção às obras de autor.
Deve ser bastante difícil dirimir este assunto. Entretanto esquecemo-nos de referir que o Duchamp assinou vários urinóis/fontes, pelo que não se perdeu uma obra única.

dismore disse...

Eu bem disse que a minha opinião era "mais que light":)) Dito isto li com atenção as vossas sérias reflexões que lançam questões muito interessantes. Não consigo, no entanto, e uma vez que se trata de dar opinião, dar qualquer tipo de valor artístico a um acto que se serve da destruição de uma peça artística de outrém para fazer passar a sua mensagem qualquer que ela seja. Muito interessante também a questão da jurisprudência, realmente levantar um precedentes destes seria muito grave. E já agora partindo das citações da Cristina "...everything an artists spits is art..." e "There is no such thing as Art. There are only artists." e o que é que define um artista, quando é que alguém se pode auto-entitular de artista. Se este tipo de manifestações fosse a única forma de "arte" desenvovida por este senhor seria ele considerado um artista ou um simples vandalo?

Cristina D'Eça Leal disse...

Penso que desde o movimento Dada que o que define o estatuto de obra de arte é a intenção do autor e a respectiva validação pelas instituições. Nos anos 60, um artista chamado Piero Manzoni, criou umas peças a que chamou Merda d'Artista e que consistiam em pequenas latas com 30g de fezes suas e cujos rótulos exibiam o nome da peça em diversas línguas. Na altura foram vendidas ao preço do ouro. Hoje são transaccionadas por valores que rondam os 35.000€.
Não faço juízos de valor, tenho muito que estudar para tentar perceber e acompanhar este nosso mundo, mas não posso deixar de pensar como é que um museu resolve a situação não inédita (por causa dos gases libertados entretanto) da explosão da sua latinha? Expõe os estilhaços numa vitrine selada? O resultado da explosão é, em si, uma obra de arte ou só foi obra o conceito?
É como a educação das crianças, dantes era muito mais fácil mas agora é bem mais divertido.

Cristina D'Eça Leal disse...

Sei mais algumas coisas sobre este assunto, porque acabei de ler uma entrevista do "malfeitor". Estamos a falar dum rapaz de 77 anos que continua a apostar nos ready made para manifestar a sua opinião relativamente a diversos assuntos, no campo social, político, das artes.
De facto, ele justifica a sua acção no sentido de devolver à "fonte" o seu verdadeiro valor e significado: o conceito; o objecto em si é apenas a materialização desse conceito. Custou-lhe ver que o centro Pompidou - e o seu actual director - tenha feito da peça um objecto de peregrinação, ao pô-lo ao mesmo nível que a Pietá, do Miguel Ângelo e uma escultura do Rodin, tendo retirado a importância ao conceito que lhe deu origem.
Ele luta contra a corrupção da arte e a incompatibilidade absoluta entre a criação artística e a lógica do lucro. E considera que a instituição que devia salvaguardar a pureza da arte tem liderado e legimitado a sua corrupção.
Diz ele que o próprio Duchamp, ao fazer diversas cópias da mesma obra, lhe retirou deliberadamente o cariz de obra única, original, para lhe associar duma forma indelével o conceito que lhe era inerente. Diz também que este processo pode ser uma forma da justiça repensar os parâmetros em que julga; já que também ela se rendeu aos valores económicos. O seu percurso tem sido no sentido de atribuir a tudo um valor financeiro; todos os danos podem ser ressarcidos com a atribuição duma determinada verba, só é preciso que essa correlação seja considerada "justa" por um juiz.
Neste momento não acho que ele seja um palerma em busca dos seus 15' de fama. Mas continuo a achar que este é um caso muito sensível. Ele é, sem dúvida, culpado dum acto de vandalismo e deve ser condenado. Mas a pena tem de ser exemplar e ter em conta a natureza do acto. Ou seja, qualquer coisa do tipo de obrigar o homem a colar os pedaços do urinol, filmando o processo e passando o video a fazer parte integrante desta "fonte" (estou a brincar, graças a Deus não sou juiz, mas penso que a pena deve ser criativa).

dismore disse...

Cristina concordo plenamente contigo. Embora tenha achado que era um palerma nunca pensei que estivesse à procura dos seus 15' de fama porque percebi que já tinha vários minutos senão horas de fama por sua conta. Isto só confirma que estas reflexões podem realmente por vezes fazer-nos olhar as coisas por outros prismas. E a verdade é que depois de lidos vários artigos sobre o assunto, não posso deixar de pensar que "the man's got a point". Não sei se leste este artigo no Independent, mas se não, vale a pena. Está com muita piada. Coitadinha da Marie Claire...

Cristina D'Eça Leal disse...

Excelente artigo, termina em beleza esta nossa troca de impressões. Ficamos com muita pena da Marie Claire, evidentemente, continuamos com dúvidas, claro, mas sentimos uma certa ternura por um homem que mantém, aos 77 anos, intacta a sua capacidade de se indignar.

pedro disse...

começo a gostar dele ;o)
adorei a performance natalicia ... concordo que este foi um bom exemplo de como se podem fazer autos de fé antes de tempo. Mas discordo da pena pela MC ... estar casada com um criativo deste calibre é uma benção!