quinta-feira, março 22, 2007

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«It is a widely accepted notion among painters that it does not matter what one paints as long as it is well painted. This is the essence of academicism.
There is no such thing as good painting about nothing.»

Mark Rothko

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Opiniões? :O)

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17 comentários:

Cristina D'Eça Leal disse...

Não consigo ser tão redutora como o grande Rothko. A questão é que nunca sabemos exactamente qual a intenção/mensagem do autor (a que ele próprio atribui pode ter sido a posteriori e também não é legítimo dizer que essa condição a desvirtua) e se ela é concordante com a nossa.
Podemos extasiar-nos com a construção plástica da pintura, a forma como o pincel ou o toco de pastel actua sobre a tela (como me acontece com a Paula Rego, por exemplo); também podemos ficar presos à contemplação/observação porque o conteúdo nos inquieta, nos faz pensar ou nos invade uma sensação indefinida de bem-estar/mal-estar, embora esteja mal pintado.
Às vezes o facto de uma tela estar assumidamente mal pintada pode ser importante para percebermos a urgência que presidiu à passagem da mensagem, conferindo-lhe maior importância.

Joana D'Eça Leal disse...

Sim, também concordo.
Mas acho que o Rothko está a centrar-se no acto artístico em si e no que leva a ele, não tanto na apreciação de uma obra. E, neste campo, também discordo um bocadinho dele. Claro que não há dúvida que a luta contra o academismo na arte foi importantíssima - foi a quebra de um ciclo muito fechado e vicioso de redução às regras e aos cânones estabelecidos. E foi essa quebra que permitiu uma liberdade criativa essencial para o aparecimento de muitas das obras e movimentos que determinaram o rumo da arte.

Agora vem o mas...

Não há dúvida que o conteúdo é importante. Pessoalmente, eu esforço-me para não pintar quadros completamente vazios de sentido, para não me limitar a exercícios formais.
Mas também acho importantes os exercícios académicos. Sobretudo, acho que a obra de um artista (no sentido lato), pode perfeitamente conjugar os dois tipos de práticas.

Percebo o que o Rothko quer dizer - está numa "cruzada" contra o academismo e contra a valorização única da forma. Mas também está a ser extremista ao querer desvalorizar completamente obras que foram criadas apenas pela prática, pela criação em si.

Luísa R. disse...

Concordo com o Mark Rothko, porque também só considero a pintura (ou a arte em geral) em que entendo uma ideia subjacente.

(não falo de mensagens, mas sim de ideias)

Por outro lado, não concordo com ele quando refere «about nothing» (embora penso que entendamos o que ele quer dizer).
Qualquer pintura tem a marca de quem a pinta. No limite, nunca será acerca de «nada».
Mesmo que seja falha de ideias ;O)

dismore disse...

Muito rápidamente para dar uma achega. Concordo com a Luísa e é bem possivel a tónica dele até esteja aí. Não se poder dizer que uma pintura é sobre "nada". É sempre sobre/a propósito de qualquer coisa.
Para mim realmente o importante é como diz a Cristina "...também podemos ficar presos à contemplação/observação porque o conteúdo nos inquieta, nos faz pensar ou nos invade uma sensação indefinida de bem-estar/mal-estar, embora esteja mal pintado...". Pelo menos é quase sempre assim que sinto a pintura.

Luísa R. disse...

Depois, há outro aspecto: conceitos como «bem pintado» ou «mal pintado»... podem variar sob muitos pontos de vista.

Cristina D'Eça Leal disse...

Achas?

Luísa R. disse...

Sim, acho.
Não variam necessariamente. «Podem» variar.
Pelo menos, é o que penso.

Luísa R. disse...

Mas atenção, «não concordo com tudo o que digo»

:O)

E tu que achas?

pedro disse...

Concordo basicamente com todas as interpretações, ainda q esteja mais perto da da joana. Por acaso tenho esta frase colada numa parede e quase todos os dias a leio. Mas leio-a à medida da minha conveniência, numa espécie de validação do meu "caminho", e esquecendo o autor. Isto encerra um paradoxo pessoal. Porque qdo leio a frase com consciência do autor, oscilo entre a sua intenção de provocação e a necessidade de saber mais sobre o contexto em que foi escrita. Esta frase solta é "perigosa" ... o rothko pinta, efectivamente, about nothing! Não sei se o academismo não estará agora mais perto do rothko ... ele previu isso e escreveu a frase, será?
"Não interessa o que se pinta, mas como se pinta..." faz sentido, mas não me motiva. Mas isto é a minha opinião pessoal. Depois aparece-me o morandi e fico baralhadinho ...
Alguém consegue ver se a frase está incluída numa entrevista ou qq outro texto?

Joana D'Eça Leal disse...

Acho que há um aspecto que está a passar despercebido, que é muito importante para a questão.
Até agora os comentários têm-se centrado na percepção do observador - por exemplo, quando a mãe fala em "contemplação/observação", quando a luísa diz "em que ENTENDO uma ideia subjacente" ou quando a isabel diz "é assim que SINTO a pintura".
Mas, na minha opinião, a ideia de academismo refere-se exclusivamente ao acto criativo, ao artista e à sua intenção. Se pensarmos bem, em altura alguma da história da arte se fala em academismo relativamente ao observador ou relativamente à maneira como uma obra é apreciada. Como tal, é irrelevante para a compreensão/discussão da frase do Rothko falarmos das circunstâncias de percepção. A apreciação de uma obra é, obviamente, subjectiva e pessoal - cada um detectará ideias ou a falta delas consoante a sua sensibilidade.
Daí eu continuar a insistir que, uma vez que se fala do próprio acto artístico, do criador e do que o levou a ele, o Rothko parece-me muito extremista e redutor ao negar completamente o valor de uma obra feita apenas pelo exercício em si.

Luísa R. disse...

Joana,

Mas eu também me refiro ao acto criativo.
Quando me refiro a uma ideia subjacente, tem a ver com a colocação de problemas e à tentativa de os resolver.

Com o caminho, com o processo em si.
Logo, com o acto criativo.

(num exercício escolar - como referiste, e não só - digo eu)

O caminho faz-se caminhando. O processo só faz sentido questionando-o, pensando-o.
E não de uma forma apreendida, automática e imutável.

Posso dar o exemplo do Hopper.
A sua pintura é associada à solidão, entre muitas outras coisas.

No entanto, Hopper responde que «what I wanted to do was to paint sunlight on the side of a house.»
Existem outros problemas colocados por ele, entre os quais os limites da nossa percepção.

Por outro lado, Hopper também diz «Great art is the outward expression of an inner life in the artist, and this inner life will result in his personal vision of the world.»...
;o)


Pedro,

Não percebi as tuas frases:

«o rothko pinta, efectivamente, about nothing! Não sei se o academismo não estará agora mais perto do rothko ... ele previu isso e escreveu a frase, será?»

«Depois aparece-me o morandi e fico baralhadinho ...»

Não queres explicar melhor?

Cristina D'Eça Leal disse...

"Quando me refiro a uma ideia subjacente, tem a ver com a colocação de problemas e à tentativa de os resolver."

Se vamos por aí, estamos a englobar tudo, como a Isabel refere. Obviamente que há sempre uma ideia subjacente, nem que seja "apetece-me pintar" e logo a 1ª escolha: vou usar pincel, um trapo, as mãos, entornar a lata de tinta; e o suporte pode ser tela, um pedaço de madeira, acrílico, a minha cara?

Agora esclarecendo as dúvidas do Pedro:
Este "statement" foi uma resposta conjunta de Adolph Gottlieb e Mark Rothko com a revisão de Barnett Newman à crítica de Edward Allen, considerando confusas as suas pinturas e oferecendo a sua coluna do New York Times em Junho de 1943 para os artistas esclarecerem o público e os críticos.

O artigo começa logo assim: "To the artist the workings of the critical mind is one of life's mysteries." Depois dizem que se recusam a explicar as suas obras porque elas são suficientemente eloquentes e que "easy program notes can help only the simple-minded." Mas entretanto fornecem uma explicação simples para "The Rape of Persephone"

http://oseculoprodigioso.blogspot.com/2005/05/gottlieb-adolph-expressionismo.html

e para "The Syrian Bull"

http://www.huntfor.com/absoluteig/gallery.asp?action=viewimage&categoryid=&text=Mark+Rothko&imageid=6117&box=&shownew=

Segue-se uma lista das suas convicções, que reproduzo integralmente:

1. To us art is an adventure into an unknown world, which can be explored only by those willing to take the risks.

2. This world of the imagination is fancy-free and violently opposed to common sense.

3. It is our function as artists to make the spectator see the world our way - not his way.

4. We favor the simple expression of the complex thought. We are for the large shape because it has the impact of the unequivocal. We wish to reassert the picture plane. We are for flat forms because they destroy illusion and reveal truth.

5. It is a widely accepted notion among painters that it does not matter what one paints as long as it is well painted. This is the essence of academism. There is no such thing as good painting about nothing. We assert that the subject is crucial and only that subject matter is valid which is tragic and timeless. That is why we profess spiritual kinship with primitive and archaic art.

Finalmente, concluem:

Consequently, if our work embodies these beliefs it must insult any one who is spiritually attuned to interior decoration; pictures for the home; pictures for over the mantel; pictures of the American scene; social pictures; purity in art; prize-winning potboilers; the National Academy, the Whitney Academy, the Corn Belt Academy; buckeyes, trite tripe, etc.

Luísa R. disse...

Cristina,

Eu entendo por ideias subjacentes, processo criativo, colocação de problemas e à tentativa de os resolver, um pouco mais do que
«vou usar pincel, um trapo, as mãos, entornar a lata de tinta; e o suporte pode ser tela, um pedaço de madeira, acrílico, a minha cara?».


Se estiverem interessados, a Livros Cotovia editou recentemente «A realidade do artista. Filosofias da arte» do Mark Rothko.

www.livroscotovia.pt/livros/arte/realidadedoartista.htm

pedro disse...

Optimo. Assim é mais fácil entender, com o texto enfiado no sitio certo. Reformulo a minha opinião:
- ele refere-se apenas ao acto criativo, nisso estamos todos de acordo;
- a frase deve ser contextualizada na época, qdo ainda se pintavam paisagens para decorar e um quadro do rothko seria no mínimo bizarro numa aula académica ou em qq sala ...
- qdo ele diz q não existe pintura sobre o nada, quer dizer que uma pintura tem que revelar a visão do artista, não basta pintar o que se vê, deve pintar-se como se sente o que se vê. Isto já vem do expressionismo e é outro assunto ...
Respondendo à luisa: retiro todas as conjecturas do meu anterior comment ;o), afinal ele não era um provocador, e até estava a jogar á defesa ...
O que ele se calhar tb não esperava é que umas décadas mais tarde se iam inverter os papéis, ou seja, os decoradores de interiores recorrem agora às large shapes and flat forms e fogem dos qudrinhos de paisagens campestres ... deve ser terrível lutar pela compreensão do trabalho e depois vê-lo massificado ;o)
Este comment revoga o anterior.

Cristina D'Eça Leal disse...

Pedro, concordo, claro, temos sempre que contextualizar as intervenções. Na altura em que este artigo foi publicado, tudo mudou na história da arte, o que não quer dizer que ainda seja absolutamente verdade.

Luísa, quer-me parecer que estás a ser elitista. Tudo o que eu disse se refere ao processo criativo e aos problemas que levanta e têm que ser resolvidos. Quando decides pintar, pode ser que seja porque qualquer coisa do mundo exterior (um filme, um livro, um poema, uma imagem) ou do teu mundo interior (um desgosto, uma alegria, uma transformação, enfim qualquer estado de alma) te impeliu a comunicar isso através da pintura ou simplesmente porque te apetece. Nessa altura tens que decidir qual a melhor forma de o fazer, que técnica usar, que suporte, em que formato, gama cromática que melhor pode expressar o que queres, enquadramento, escala, composição. Tudo isso são problemas que têm que ser resolvidos por quem quer que seja que comece, neste caso, uma pintura, independentemente de ser um artista de fim de semana ou outro. A mim parece-me óbvio que qualquer pintura tem que ter uma ideia subjacente, mesmo a do palhacinho a chorar.

Não te parece?

Luísa R. disse...

Parece-me que seria interessante ler o livro referido acima.
Ou outra fonte de informação.

A citação foi um teaser para posterior pesquisa.

Não acho que nos deveríamos ficar pelas meras citações.

Luísa R. disse...

Quanto à questão que colocas, penso que já respondi no meu 1º comentário.