terça-feira, maio 29, 2007

vamos então ao modernismo ...



Aproveitando que uma está a arrumar telas, outra está sem net e a outra estuda sem parar, vim aqui, pé-ante-pé, postar uma coisa para tentar recuperar terreno ... e de caminho lanço o debate sobre o modernismo, para ir adiantando serviço ;o).

Comecemos pela própria definição de modernismo, se existir. Alguém quer avançar?

13 comentários:

Cristina D'Eça Leal disse...

Não estou a arrumar telas porque a Junta pediu-me para só as levantar no próximo dia 5/Jun.

Retrataste uma cena do quotidiano? Uma colega da atelier?

Em relação ao modernismo, vou dizer coisas porque não consigo estar calada, mas acontece que o século XX está repleto de "ismos" e, sinceramente, tenho alguma dificuldade em definir ou situar alguns deles.

Penso que o modernismo seja um termo lato que inclui uma série de outros "ismos" mais específicos, como o cubismo, o surrealismo, o abstraccionismo, o expressionismo, o neoplasticismo, etc.

Reflecte a mecessidade premente de romper com o status quo e acompanha as revoluções científicas - teoria da relatividade, física nuclear aplicada -; a psicanálise - que explora novas esferas da consciência -; as revoluções sociais - como a instauração do regime marxista na União Soviética e a proliferação de novas ideologias -; o desenvolvimento fulgurante dos transportes e das comunicações.

Na arquitectura acho que é mais fácil porque não se fragmentou nesses "ismos" a perder de vista. Penso que, fundamentalmente, elevou a funcionalidade à condição de objectivo principal, rejeitando a ornamentação, numa sobriedade extrema. Deixam de se respeitar critérios de simetria e a concepção arquitectónica é feita com base em critérios de necessidades, hábitos e conveniências dos habitantes.

Impõe-se no mundo durante vários decénios, mas acho que acabou por se sistematizar e privilegiar a forma, acabando por subverter o princípio que esteve na sua origem: a funcionalidade.

Agora é a vossa vez de me dar na cabeça porque só disse asneiras...

dismore disse...

Ainda não tive muito tempo para me debruçar sobre a matéria, mas aparentemente os primórdios do modernismo tiveram origem no renascimento e na época do iluminismo e a pintura chamada modernista que se fez entre a segunda metade do século XIX e os anos 1960/1970 reflecte esses mesmos ideais, não é? Como tu dizes Cristina, a razão e a ciência estarão na base de tudo. E mais não digo, vou estudar...:)

pedro disse...

Tudo o que li (confesso que não foi muito) assenta num cepticismo relativamente a uma definição clara do que é o modernismo. Ninguém consegue ser peremptório, o que já revela algo.

Por via inversa de outros ismos - realismo, impressionismo, expressionismo, surrealismo, cubismo, etc - o modernismo parece tentar abarcar todos estes estilos, como disse a cristina, ao admitir que se tem em comum uma experiência emocional na observação da obra e que há de algum modo um rompimento com um estilo predominante. Por isso mesmo, o modernismo acha-se anacrónico, o que contraria um pouco o que disse a dismore. Ou seja, giotto, el greco, courbet, manet, matisse, cezanne, picasso, mondrian e rothko, pollock, bacon, richter, podem ser modernistas ... a bauhaus é um bom exemplo do modernismo arquitectonico e construtivista de que fala a cristina?

em termos mais latos, acho que o modernismo assenta na formalização da visualização da obra, ou seja, a obra deve ser apreciada em termos da sua composição, cor, pincelada, etc, e não (ou só depois) segundo o seu valor interpretativo ou simbólico. Será que esta corrente é agora a dominante académica e por isso mesmo poderá tornar-se num novo classicismo? Será que o pós-modernismo, p. ex., é uma reacção a isso? dúvidas e mais dúvidas ...

Quanto ao acompanhamento das revoluções científicas, sociais, duvido da relação, cristina ... alguns modernistas surgem em periodos conturbados da história: piero della francesca surge no final da guerra dos cem anos; manet pintou nenúfares com tiros de canhão a uns km da sua casa; não há uma reacção modernista à revolução francesa, o que aparece é qq coisa tudo menos moderna, o romantismo a que baudelaire atribui modernismo é o do goya, turner, constable, friedrich; leonardo surge antes da reforma luterana; mas bosch e bruegel já poderão ser produto do que falas; courbet surge tb em plena "revolução ideológica" europeia; por outro lado, o expressionismo surge todo num periodo de calma guerreira ... mesmo o abstracionismo é anterior à I guerra; é no periodo optimista pós II guerra que voltam a aparecer modernistas (pollock, bacon, rothko); a energia nuclear aplicada surge depois destes; do teu lado fica alguma relação possível entre a fisica quantica e a relatividade (1905) e o moderníssimo cubismo;

fico a aguardar uma "mulher-a-dias" para a minha cabeçinha ... mas já estudei o que tinha a estudar. agora vou é pintar ;o)

Cristina D'Eça Leal disse...

O José-Augusto França diz que o "Modernismo, no sentido que em Portugal se lhe atribui, houve, sem dúvida, na primeira geração de artistas, dos anos 1910 e 20, prolongados em 30 e adaptados ainda em 40."

dismore disse...

Pedro, acho que não me fiz entender. Não me parece que o que eu escrevi contrarie o que dizes. Ao referir-me aos ideias do renascimento referia-me precisamente ao rompimento com as ideias e pensamentos dominantes até àquela época. Acompanhando esse movimento o modernismo rompe com a pintura tradicional de representação do real,e de temas religiosos para se centrar na representação de sentimentos e ideias, talvez mais "terrenas" e mais centradas no homem e no seu quotidiano. Será isto? Eu não preciso de mulher-a-dias porque não tenho muito que arrumar ainda:)Só preciso de saber o que guardo ou o que deito fora. Aceito ajuda.

pedro disse...

Dismore, eu fiz algumas confusões e acho que vou ter de estudar mais. A Luisa chamou-me a atenção para a "perigosa" confusão entre modernismo e modernidade ... o movimento a que te referes de fuga para o individuo e fuga dos assuntos religiosos, pode efectivamente estar na genese do modernismo, mas está tb sem dúvida na genese do realismo de courbet e millet e no impressionismo, fruto sem dúvida da ascenção da burguesia e decadencia das anteriors dominantes (clero e nobreza}. Mas de qq forma, há uma coisa que penso não ter errado: é que o modernismo não é um estilo de pintura, mas antes um enquadramento crítico. Não se pode dizer que fulano é modernista, como eu disse e mal, mas sim que pode haver uma vertente da sua pintura que pode ser enquadrada pela critica modernista.
Daí que o giotto, o el greco e alguns que eu referi mal, têem uma modernidade intrínseca, mas não são enquadráveis por esta critica. O richter, p ex., até pode ser um pós-moderno, ao contrário do que eu disse. a essencia do modernismo parece assentar nas teses de greenberg, de que, confesso, ainda nada li, mas vou ler, se conseguir.

Luísa R. disse...

Acrescente-se que disto tudo que o Pedrinho acabou de escrever, o que me cabe foi só a chamada de atenção para a distinção entre modernidade e modernismo.

Agora se a mistura dos dois conceitos é "perigosa" ou não, já não sei.

Como já te disse, desta vez, estou com alguma dificuldade em seguir os teus comentários, amigo.
Talvez, por isso, ainda não tenha comentado nada :O)

Até porque me é difícil discutir um assunto tão vasto num comentário de um post de um blog.
Vou tentar. Mas não agora :o)

pedro disse...

não é a mistura de conceitos que é perigosa ... eu disse a perigosa confusão entre modernismo e modernidade e meti perigosa entre aspas, que é para ficar bem presa ... entre as aspas, claro. e assim deixa de ser tão perigosa, a confusão que era supostamente perigosa, mas não era nada, porque eu não queria dizer perigosa, mas sim "perigosa", ora ...

Hoje alguém habilitado deu-me a versão de modernismo na literatura ... tem alguma piada fazer analogias e facilita a compreensão. Mas na literatura as coisas estão mais definidas.

Luísa R. disse...

Quanto ao teu 1º parágrafo... acho que não me sinto habilitada para o comentar.

Quanto ao 2º, fico contente por saber que se está a fazer alguma luz :o)
Tens de nos contar, então.

Cristina D'Eça Leal disse...

Eu a achar que vocês iam tratar de me esclarecer com meia-dúzia de conceitos e parece que fiquei ainda mais confusa.
Fui consultar o que diz acerca disto um historiador de arte, neste caso Charles Harrison.
Pedro, para ajudar à confusão que criaste, ele acrescenta ainda o termo Modernização.

Assim, temos a Modernização que diz respeito aos processos tecnológicos, económicos e políticos relacionados com a Revolução Industrial; a Modernidade que se refere às consequências desses processos no que concerne às condições sociais.

Quanto ao Modernismo, aí o caso muda de figura porque a sua definição é altamente polémica. Diz ele que "de modo geral, significa a propriedade ou a qualidade de se ser moderno ou de se estar na moda. No entanto, também pode querer significar um determinado tipo de postura ou de atitude - caracterizado por formas específicas de resposta em relação quer à modernização quer à modernidade. Quando o termo se aplica à arte, existem, por conseguinte, dois problemas a ter em conta. O 1º é que o Modernismo tem tendência para não ser usado como um vocábulo generalizante, abrangente de toda a arte do período moderno. Mais exactamente, considera-se uma forma de valor normalmente ligada apenas a certas obras e com o objectivo de as distinguir de outros trabalhos."
(...)
"As origens do Modernismo têm sido situadas em épocas tão variadas como entre o final do séc.XVIII e o início do séc.XX, enquanto a recente aceitação do conceito de pós-Modernismo implica que, ou que o próprio Modernismo tenha completado o seu percurso, ou que se tenha tornado sinónimo de uma forma de conservadorismo cultural - o que pode significar a mesma coisa.
É muito difícil referir um destes problemas sem se ser apanhado pelo outro. Por exemplo, se se olha ou não o Modernismo como possivelmente esgotado, depende do tipo de valor ou de categoria em que cada um acredita que ele se integra. É, tão somente, esta dupla relação, na avaliação, por um lado, e do estabelecimento de barreiras temporais, por outro, que torna o conceito de Modernismo difícil de definir."
(...)
"A partir destas duas precauções - de que devemos evitar pensar na arte moderna 'ou' como algo meramente reactivo 'ou' como algo de certo modo isolado e inquestionável - podemos reconhecer uma perspectiva única e mais positiva do Modernismo."

E mais não digo, ou melhor, não transcrevo.

Cristina D'Eça Leal disse...

Clement Greenberg, em 1960, disse que "a arte realista, naturalista dissimulou os meios usando a arte para esconder a arte; o Modernismo utilizou a arte para chamar a atenção para a arte".

Parece que o Modernismo tem mais a ver com uma postura crítica em relação a qualquer tipo de cânone enquanto se referencia nas novas tendências culturais e sociais; a originalidade da experiência sensorial que as suas obras provocam parece ser fundamentalmente o que distingue a atitude modernista daquela apenas contemporânea. No caso da pintura modernista, o tema é irrelevante; o que conta é a composição e a expressividade da execução no sentido de provocar reacções emocionais no espectador. De certa forma, a pintura perde a sua função de representar a realidade para passar a preocupar-se com problemas inerentes à própria pintura e aos processos de composição.

A principal crítica ao Modernismo é precisamente a de que este movimento - ou esta atitude - se esgotou em si próprio(a), privando a arte do seu papel intemporal de nos dar novas interpretações do mundo em que vivemos.

A graça é precisamente esta: quando alguém acha que descobriu uma solução, começam a surgir mais problemas e o ciclo nunca se fecha.

Papa Livros disse...

Aqui vai um pequeno contributo para esta troca de impressões. (texto retirado de “Conceptos Fundamentales de Arte” de José Mª Faerna García-Bermejo e Adolfo Gómez Cedillo.

Modernismo
(Art Nouveau na França e Bélgica, Jugendstil na Alemanha, Secessionstil na Austria, Stilo Liberty em Itália, Modern Style na Inglaterra e Escócia, Modernisme na Catalunha)

Movimento de renovação da arquitectura e das artes decorativas que se desenvolveu em vários locais europeus durante a última década do séc. xix e primeira do séc. xx. A sua origem relaciona-se com a repercussão na Europa do movimento Arts & Crafts, nascido na Grã Bretanha na segunda metade do séc. xix e inspirado nas ideias de William Morris sobre os benefícios sociais, morais e funcionais da produção artesanal de móveis e de objectos de uso doméstico.

O movimento Arts & Crafts engrandece, na Idade Média, a Arquitectura e o trabalho artesanal populares como alternativa à adaptação das formas tradicionais à produção industrial que fabrica objectos de fraca qualidade artística e funcional.

O modernismo bebe no movimento britânico a reivindicação do trabalho artesanal e a dignificação artística das artes decorativas propondo a equiparação entre objecto utilitário e objecto artístico. Também é sensível à ideia de que as artes podem ser um instrumento de mudança social e muitos modernistas comprometeram-se com movimentos socialistas e cristãos com caracter reformista. Aliás como já ocorrera com o movimento Arts & Crafts.

O que verdadeiramente distingue o modernismo é a intenção explícita de construir, pela primeira vez, um estilo moderno e independente dos estilos do passado. Trata-se de dar uma resposta original à questão do ornamento, que não se concebe como um acrescento, mas como um princípio formal que configura as peças e edifícios na sua totalidade conferindo-lhes unidade e dignidade artística.

Esta linguagem decorativa é de origem orgânica, inspira-se nos ritmos que se podem observar nas formas da natureza, sobretudo vegetal, devidamente estilizadas e é também predominantemente linear.

Os seus motivos mais característicos são curvilíneos (o jogo da curva e contra-curva, conhecido pelo “golpe de chicote”).

A gramática formal do modernismo actua como elemento unificador das diferentes partes do edifício, desde a planta até à fachada. Mas também tranforma o edifício e o mobiliário em parte da mesma unidade formal. Tudo é concebido como uma “obra de arte total”. O refinamento e o gosto pelos materiais preciosos e pelos procedimentos artesanais restringiu o modernismo a uma clientela da alta burguesia o que também aconteceu com o movimento Arts & Crafts apesar das suas preocupações de reforma social.

Cada um destes núcleos tem personalidade própria (modernismo curvilíneo é mais frequente na Bélgica, França e Espanha, formas lineares e geométricas em Glasgow e Viena) mas o ideário fundamental é comum.

Durante muito tempo considerou-se o modernismo como um fenómeno brilhante e fugaz que se consumiria a si próprio.

Contudo é evidente que nos trouxe alguns elementos de grande importância para a arquitectura e para o desenho, como a unidade da linguagem formal das diferentes especialidades artísticas. Influenciou, directamente, a arquitectura expressionista alemã e holandesa do perído entre guerras.

Cristina D'Eça Leal disse...

Muito bem vindo, papa livros! Espero que esta seja a primeira de muitas visitas e contribuições.

Sabiam que o Jorge Peixinho fez parte do movimento modernista em Portugal? E eu que sempre o considerei paradigmático do pós-modernismo... Só fiquei a saber a verdade dos factos depois da maratona de 3 dias no Arpad Szènes sobre os 30 anos da Alternativa Zero.

Por causa desta confusões, acho que agora o tema que se impõe é o pós-modernismo. Sugiro que comecem a estudar que eu estou prestes a introduzir oficialmente o tema.