sábado, abril 14, 2007

Niuluk


a confusão do costume, acrílico s/tela, 50x50cm

Não resisto a estrear a nova versão do blog em traje de cerimónia... Gosto muito. É um prazer trabalhar com pessoas tão laboriosas.

Comprei hoje um livro do Alexandre Melo, O que é Arte, e, como sempre, comecei pelo fim. E o fim fez-me querer muito ler o resto. Aqui vai o posfácio, com o sugestivo título "Tudo o que você sempre quis saber sobre arte":

O QUE É ARTE?
Arte é tudo aquilo a que numa determinada sociedade se chama arte.

QUALQUER COISA PODE SER ARTE?
Claro que sim, desde que se apresente e seja socialmente aceite como tal por um pequeno círculo de especialistas.

QUALQUER PESSOA PODE SER ARTISTA?
Claro que sim, desde que se apresente e seja socialmente aceite como tal por um pequeno círculo de especialistas.

O QUE É QUE TORNA UM ARTISTA FAMOSO?
A conjugação de três formas de sucesso: comercial, através da cotação; público, através da notoriedade; cultural, através do prestígio.

PORQUE É QUE HÁ OBRAS DE ARTE QUE CUSTAM UMA FORTUNA?
Porque há quem esteja disposto a pagar uma fortuna por elas. Pode até acontecer que um pequeno grupo de pessoas esteja disposto a pagar qualquer preço por obras que a esmagadora maioria não quereria nem dadas.

SERÁ QUE O SUCESSO DEPENDE DE JOGOS DE INFLUÊNCIAS?
Completamente. Como quase tudo na vida, aliás.

SERÃO OS CRÍTICOS QUEM DECIDE O ÊXITO DOS ARTISTAS?
Cada vez menos, em comparação, por exemplo, com grandes coleccionadores ou responsáveis por grandes museus.

OS ARTISTAS ESTARÃO DOMINADOS PELO DINHEIRO?
Tanto quanto quiserem, como sempre.

SERÁ QUE JÁ NÃO HÁ PRINCÍPIOS PARA APRECIAR OBRAS DE ARTE?
Conforme o que entenda por princípios:
não há nem são necessários;
há tantos como sempre houve
ou há cada vez mais e mais variados.

SERÁ QUE A ARTE ACABOU?
Só quando deixar de se utilizar a palavra.

O QUE É QUE DISTINGUE UMA OBRA DE ARTE DE OUTRA COISA QUALQUER?
O tipo de atenção, afeição, reflexão e conversa que lhe são dedicados.

9 comentários:

Luísa R. disse...

Gosto muito do Alexandre Melo.

Este livro é um contributo para uma explicação da arte do ponto de vista sociológico.

(aqui vais encontrar uma resposta ao teu comentário do último post)

Como «private joke», ver a distinção das zonas de gosto (pp. 97 a 103, edição de 1994)

Luísa R. disse...

A edição que tenho cá em casa não tem esse posfácio.
O livro acaba com um roteiro seguido das referências bibliográficas.

pedro disse...

1) continuo a ficar esmagado com a tua técnica, especialmente com o domínio da cor ... curiosidade: como se processa a cosntrução do teu objecto de pintura? neste caso, arrumaste os frasquinhos para a composição ou pegaste num fragmento de uma situação casual?

2) quanto ao posfacio ... gosto muito da definição de arte do herbert read, e esta não a supera, mas teria de ler o livro. Ele tb define "belo"? gostava de comparar.

Luísa R. disse...

A propósito da noção de Belo:

Sobre as várias ideias de Beleza, da Antiguidade Clássica aos nossos dias:
Uma História da Beleza, direcção de Umberto Eco, da Difel, 2004.

Bastante acessível e muito bonito.
Claro :o)

Cristina D'Eça Leal disse...

Relativamente à caracterização das zonas de gosto, esta semana ainda vou fazer um resumo para o Pedro e a Joana, porque acho que está bastante interessante. É sempre complicada a simplificação e a divisão em categorias, mas é um exercício essencial, desde que tenhamos presentes as suas limitações, evidentemente.

Luísa, queres ser mais específica na resposta que o livro dá ao meu comentário?

Agora o post do Pedro.

Quanto à "confusão do costume", a situação é, infelizmente, real. Eu tenho tendência para me apropriar dos espaços e, concretamente nas casas de banho, as bancadas e prateleiras vão-se enchendo de frascos, boiões, velas, sabonetes, livros, etc. Neste caso específico, sem qualquer valor estético no conjunto, daí o título. Retirei alguns objectos do contexto - tentando manter o espírito do problema -, ordeneio-os numa certa desordem (estranho, não é?) e trabalhei a luz que achei indicada num arranjo que me pareceu plasticamente interessante.

Em relação à definição de belo, ainda não acabei o livro, mas ele não vai por aí. São questões muito práticas relacionadas com o mundo da arte, numa esforço de caracterização do mundo das galerias, dos coleccionadores, dos curadores dos museus, dos artistas, enfim, dos diversos grupos que gravitam em torno da arte - ou que constituem o mundo da arte, se preferirem. Quando acabarmos estas reflexões podemos passar ao "belo", que também tem pano para mangas.

Luísa R. disse...

Cristina,

Penso que o livro tem uma resposta ao teu comentário «Não é o diploma que garante o génio, nem a validação pelos pares ou pelo público. É algo mais indefinido porque dependente de variadíssimos factores, todos eles relevantes, mas nenhum que consiga a proeza de ser o necessário e suficiente. Concordam?»

A resposta encontra-se pelo livro todo.
Mas, a certa altura, ele resume muito bem os vários intervenientes no processo (desde os críticos, os curadores, etc., até ao público em geral).
Já li o livro há uns anos. Vou ver se consigo achar a página onde li o tal resumo. De qualquer forma, estás a ler. Por isso, vais encontrar.

Tenho uma entrevista gravada com o Alexandre Melo também sobre o mesmo assunto. Vou tentar descobrir onde está e posso emprestar-vos se estiverem interessados.

Quanto à minha resposta sobre a existência de «variadíssimos factores, todos eles relevantes» dos quais depende a validação: concordo. Penso que não faria sentido de outra forma.
Na minha opinião, todos os factores contribuem, embora julgue que cada um terá o seu peso respectivo.

Relativamente às zonas de gosto:
Não sei se concordo contigo quando afirmas que a divisão em categorias é um exercício essencial. Talvez tenhas razão.
O que sei é que a 1ª vez que li essa parte, fartei-me de rir ao lembrar-me de algumas situações e de algumas personagens.
Entretanto, alguns anos passaram. E, agora, que reli esse bocadinho... voltei a achar piada.

pedro disse...

cada vez mais curioso com o livro ...

Cristina D'Eça Leal disse...

Conforme prometido, aqui vai caracterização das zonas de gosto feita por Alexandre Melo. Os textos entre parêntesis são noções retiradas da explicação mais pormenorizada de cada uma das zonas, que me pareceram importantes para uma maior compreensão.


"zona especializada

identifica-se com o sistema da arte contemporânea, por definição, na medida em que é ela que lhe dá conteúdo; é interclassista, com dominante da classe média em termos económicos e da alta em termos de formação;(é a zona mais intelectualizada, onde o mais importante é o nível de formação cultural, relegando para 2º plano as origens familiares ou o poder económico; tem as suas áreas próprias de exibição mundana e de promoção social, que se distinguem das outras porque valorizam menos a notoriedade e visibilidade públicas alargadas e dão prioridade à instauração de círculos supostamente restritos, relativamente fechados e susceptíveis de produzir efeitos elitistas)


zona tradicional

polarizada na arte antiga, com alheamento em relação à arte contemporânea; é exclusivista, com dominante da classe alta em termos económicos e de formação, e com valorização da origem familiar, embora inclua alguns desvios ou apêndices vernaculares ou imitativos;(encontramos aqui desvios ao padrão relativamente ao extracto económico como seja, no limite, a figura do aristocrata falido que faz questão de continuar a exibir os seus sinais distintivos; e desvios relativamente à formação, como sejam os novos-ricos para obter o que consideram uma situação de maior prestígio social e cultural - figura do novo-rico armado a aristocrata)


zona mundana

tem uma relação parcial e parcelar com a arte contemporânea através da franja mais mundana e decorativa; é aberta à mobilidade social com dominante da classe alta em termos económicos, sendo a formação pouco importante;(privilegia os valores da visibilidade e notoriedade e está próxima da noção de jet-set, aceitando qualquer artista que atinja um determinado nível de sucesso económico e social sem precisar duma correspondente caução teórica ou intelectual; muito importantes nesta zona são as inaugurações, festas, leilões e a respectiva cobertura mediática - as coluna sociais ou a informação geral são mais importantes do que a imprensa especializada; aqui o nível de formação e informação é pouco relevante, e é onde maioritariamente se projectam as ambições de promoção social; a primazia à visibilidade e notoriedade faz com que, regra geral, esta seja também a área preferida pela classe política)


zona mediana

tem uma relação com a arte contemporânea limitada a artistas com um grau elevado de notoriedade na opinião pública; é interclassista, aberta e com dominante da classe média;(só se relaciona com a arte contemporânea através dos nomes que atinjam um razoável grau de notoriedade nos meios de comunicação)


zona popular (variantes vernacular, populista e pequeno-burguesa)

não tem nenhuma relação com a arte contemporânea, predominando a referência a valores culturais populares tradicionais; é interclassista, com dominante da classe média-baixa, mas com desvios e extensões a todas as outras.(privilegiadas as artes decorativas, o artesanato, a arte naif, onde a heterogeneidade interna é sobredominada pela oposição rual/urbano; as relações com a arte contemporânea, a existirem, estabelecem-se apenas ao nível dos nomes mais famosos e consagrados, como se explica pela frequência com que artistas amadores, com uma difusão estritamente local, quando falam do seu próprio trabalho se referem mais facilmente a Leonardo da Vinci, Van Gogh ou Picasso do que a quaisquer outros artistas objectivamente mais próximos deles)

pedro disse...

isto está um mimo!!! paralelamente à leitura iam surgindo caras para encher cada uma das caixinhas (zonas). aconteceu-vos o mesmo? parece que sim ...